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Artigo: Pandemia e ensino remoto: tempo de incertezas e invenção

Pandemia e ensino remoto: tempo de incertezas e invenção (1)

Helena Sampaio (2)

Era 12 de março de 2020, quinta-feira à tarde, estava na primeira aula da disciplina Educação e Antropologia Cultural com os ingressantes do curso de Pedagogia do integral, quando fomos informados de que a reitoria havia suspendido as aulas presenciais por causa da pandemia da Covid-19. No dia seguinte à noite, daria aula para a turma do noturno, o que já não aconteceu e, portanto, não chegamos a nos encontrar fisicamente.

Organizei este relato sobre a experiência no primeiro semestre de 2020 em três partes: a primeira chamei de “Paralisia”, a fase do estranhamento; a segunda, de “Em busca de uma ideia” e a terceira, de “Compromisso e engajamento”.


1. Paralisia – durou quase duas semanas.

A primeira semana. Confesso que fiquei aliviada; aproveitei para dar uma boa arrumação na casa. Tinha acabado de chegar de um estágio de pesquisa de pós-doutorado na EHESS, em Paris, e mal havia conseguido desfazer as malas, porque precisava preparar as aulas que começariam em uma semana. Meu plano era tirar ao menos uma semana de “folga” na Unicamp e arrumar a casa, encontrar os familiares que não via há seis meses e preparar melhor o curso etc. Assim, de imediato, não pensei muito na gravidade do assunto e na extensão que poderia assumir.

Na segunda semana, tudo aparentemente estava no lugar, inclusive a família novamente reunida e posta na rotina. As notícias que chegavam sobre o tal do novo coronavírus não eram nada boas. Quanto tempo vai durar isso? 1 mês, 2 meses? Um semestre? Ninguém sabia. Havia muitas informações desencontradas nesses primeiros dias. Mas só de pensar que uma das minhas turmas era de ingressantes me deixava muito inquieta.

Na reunião emergencial de departamento, havia boatos de que a Unicamp talvez adotasse o ensino remoto, porque a suspensão das aulas presenciais poderia se estender por todo o primeiro semestre. A perspectiva não era bem acolhida pelos colegas que propunham retornar às aulas somente quando fosse possível oferecê-las de modo presencial. Eu pensava nos ingressantes e, talvez, no caso deles, esperar pelo presencial poderia ser mais grave do que tentar alguma coisa no formato remoto. Contrariando o provérbio, qualquer emenda poderia ser melhor que o soneto.
Naquela ocasião, eu tinha apenas algumas certezas do que eu não podia fazer, mas eu não tinha nenhuma pista sobre o que e como fazer. Então, comecei a pensar pelos nãos, isto é, pela eliminação:

a) A primeira certeza é que não cabia naquelas circunstâncias seguir um programa elaborado para uma situação de normalidade, ou seja, de aulas presenciais. Era preciso um outro programa, especialmente em relação à organização da disciplina em termos do número de aulas expositivas, de seminários em grupo, de filmes e documentários em sala de aula, carga de leituras etc. A pergunta que eu me fiz era: o que é mesmo fundamental, incontornável disso tudo que preparamos para transmitir aos estudantes e cumprir as 16 aulas de 4 horas totalizando 64 horas/aula no semestre e que a gente acredita que é “disciplina de fundamento”?
b) A segunda certeza da lista dos nãos é que não havia mais sentido adotar os procedimentos usuais de avaliação, em geral, apoiados em entrega de fichamentos de leituras, seminários de leituras em grupo e um trabalho final (eu não costumo dar provas). Precisava rever isso também.
c) A terceira certeza era que eu não devia manter aulas de 4 horas. O motivo é óbvio: ninguém aguentaria ficar 4 horas em frente a uma tela de computador ou da de um celular. Nem filmes muito bons, premiados e com grande elenco, lindos cenários, trilha sonora de primeira, conseguem. Seria muita pretensão da minha parte achar que estava com essa bola toda.
d) A quarta certeza é que eu não devia usar a fórmula Power Point (confesso que às vezes eu uso nas aulas expositivas presenciais). O Power Point já dá sono ao vivo, os alunos bocejam, imagine passar em uma aula remota toda aquela precariedade tecnológica.
e) Minha última e decisiva certeza dos nãos: não havia tempo a perder. Primeiro, porque pela experiência de professora de ingressantes, sei que eles e elas chegam à universidade com muitas expectativas em relação ao campus, ao refeitório, ao curso, à grade de disciplinas, aos novos amigos que farão, aos professores que irão conhecer…enfim, é um caminhão de expectativas! Não podia esperar o tempo das decisões dos colegiados ou da bem intencionada burocracia da faculdade para começar a agir. Para justificar essa minha dose de “desobediência docente”, eu tinha a meu favor o que nos diz 9 de 10 estudos sobre ingressantes na universidade: em toda parte (e me refiro a diferentes instituições e países), os estudantes do primeiro ano são os mais propensos a evadir de seus cursos e, em geral, fazem isso nos 3 primeiros meses ou nos 100 primeiros dias. Eu já vinha lendo bastante sobre isso (existe uma bibliografia respeitável, Coulon, Pinte etc.), o que havia até me levado a submeter um projeto para um edital da Convest/Faepex para este ano. E isso foi um pouco antes da pandemia.

Esta última certeza dos nãos, ou seja, de que não podia esperar o consenso dos colegas sobre adotar, ou não, o ensino remoto, lembrei da canção da boa e velha Legião Urbana, “temos nosso próprio tempo” e sai da fase da paralisia.


2. “Em busca da ideia”

Decidi gravar um vídeo para dar o recado para circular nas redes sociais e no moodle. Mas para o recado ser recebido, surtir algum efeito, precisava ter um conteúdo, uma ideia.

Minha fala não podia ser apenas para marcar um encontro do tipo: “vamos ver o que podemos fazer”. Sabe, aquela coisa “apareça lá em casa um dia”? Mas ela já deveria apresentar uma proposta de trabalho para os estudantes.

Eles precisavam sentir firmeza, saber que a professora tinha pensado (e muito) neles e tinha um plano de trabalho em mente. Precisavam saber que eles importavam como estudantes para mim, para o PED, para a faculdade de Educação e para a Unicamp. Precisavam saber que “nós”, essa comunidade universitária, sabíamos quem eles eram e que estávamos atentos à formação intelectual e ao bem-estar deles na universidade. Eles não chegaram aqui por acaso. Quanto maior é a incerteza, mais forte tem que ser a luz que ilumina o caminho pela frente.

Vocês se lembram que da minha “lista de certezas de nãos” uma delas era mudar o programa, descobrir a sua “alma”. Não se tratava de uma mera redução quantitativa de textos para ler, de aulas expositivas a serem dadas, de seminários de grupos, de filmes e documentários etc. Tratava-se de se perguntar o que sobrevive num programa de disciplina depois que tiramos todos os seus “penduricalhos”?

Não demorei muito para intuir que o contexto da pandemia acelerava uma ideia que não é tão nova, mas que sempre encontramos um jeito de protelar – que é a de colocar o estudante no centro do aprendizado.
Em tempos de ensino remoto imposto pela pandemia, o programa da disciplina deveria se voltar para o estudante, ter equilíbrio (o tal bom senso, né?) e atender a alguns requisitos que para mim eram -e ainda são- fundamentais.

Foi assim que comecei a dar forma a um novo programa para ser desenvolvido no modo “ensino remoto”, formado por conjuntos de atividades:
1) atividades que pudessem propiciar bem-estar (fazer companhia, acolher, compreender, acalmar, ser prazerosa etc.) para qualquer pessoa em um contexto de isolamento social, que esteja privada dos amigos, da família, dos colegas, das atividades sociais, da livre circulação pelos lugares que costuma frequentar etc.
2) atividades que correspondessem a uma certa imagem do que fazem os estudantes na universidade. Ingressantes, em geral, estão muito satisfeitos consigo mesmos (e eles têm toda razão de estarem!), pois tornar-se estudante universitário é tanto fruto de várias conquistas como desencadeador de muitas mudanças: vencer o árduo e nem sempre motivador ensino médio, decidir por um curso, por uma instituição e ter sucesso no vestibular; muitas vezes, deixar a casa da família, pois muitos mudam de cidade etc. – e, por isso, em geral, estão ansiosos para começar a nova vida. Mas de repente veio a pandemia e colocou tudo isso em suspensão. Era preciso reproduzir, ainda que pelos meios remotos, um pouco do ambiente idealizado de universidade, ou seja, um lugar de autonomia e de compromissos. Exigir algumas tarefas e, sobretudo, estipular prazos para realizá-las.
3) atividades que propiciassem aos estudantes estabelecer vínculos afetivos, relações de confiança entre eles em uma situação de não contato físico (que é a sala do google meet). Os ingressantes não tinham tido sequer tempo suficiente para se encontrarem e se conhecerem, ou seja, se “socializarem”.
4) Atividades que motivassem o engajamento intelectual dos estudantes, entendendo que isso é um processo muito mais amplo e duradouro que os conteúdos de uma disciplina, com duração de um semestre letivo. Mas eles precisavam ser mordidos pela mosquinha da descoberta.

A partir dessas constatações, defini que usaria um romance para dar o start na disciplina #interdisciplinaridade. Sua leitura e discussão substituiriam as usuais aulas expositivas introdutórias sobre a interface entre educação e antropologia.

Usar a literatura em disciplinas da graduação e até da pós-graduação não era propriamente inusitado. Ao ministrar por alguns semestres, na FE, a disciplina Tópicos especiais em Ciências Sociais e Educação para estudantes das licenciaturas, li e discuti com diferentes turmas, o romance A Marca Humana, de Philip Roth. O resultado sempre foi muito positivo. Os estudantes ficavam entusiasmados ao se depararem com a complexidade dos sentimentos, das relações e dos comportamentos humanos e, logo, com a possibilidade de flexibilizarem, no decorrer da trama, nossos julgamentos maniqueístas que costumamos lançar sumariamente sobre o outro a partir de nossos próprios lugares e valores.

Afinal, a literatura, como a arte em geral, são armas poderosas contra o Mal e a Dor, Como diz a escritora espanhola Rosa Montero, “os romances não os vencem -o mal e a dor são invencíveis-, mas nos confortam do espanto. Isto porque “nos unem ao resto da humanidade: a literatura nos torna parte do todo e no todo, a dor individual parece que dói um pouco menos”.

Recorri à minha filha, uma leitora voraz e ser atualizadíssimo das novidades literárias (existe uma questão geracional importante que precisamos considerar no gosto e linguagem literários). Ela sugeriu o livro Americanah, da escritora nigeriana Chimamanda Ngozi Adiche. Em dois dias, venci 300 páginas de cerca de 500, mais que o suficiente para saber ser uma boa escolha.

O romance Americanah, para quem não o conhece, tem muito apelo entre os jovens: escrito na primeira pessoa por uma nigeriana, Ifemelu, que deixa a sua casa, seu namorado e o seu país para estudar nos Estados Unidos. Como jovem mulher negra da África, ela é uma observadora arguta da sociedade norte-americana e, agora pelo distanciamento e oportunidade de fazer comparações, de sua própria sociedade, o que faz do livro um jogo de alteridade, de estranhamento e familiaridade conduzido pela personagem. Além desse exercício remeter ao que é inerente ao pensamento antropológico, a personagem, Ifemelu, trata com muita leveza, inteligência e humor, uma série de temas contemporâneos – condutas e comportamentos politicamente corretos, questões de gênero, a situação do negro na África e nos EUA, relações entre as classes sociais, relações amorosas e familiares etc.

Em outra ocasião, em uma disciplina de metodologia na pós-graduação, sobre O suicídio, de Durkheim, introduzi a leitura de Madame Bovary, de Flaubert, para situar o suicídio como tragédia individual, fenômeno social e fato social na segunda metade do século XIX.

A Ridícula ideia de nunca mais te ver. São Paulo: Editora Todavia, 2019. Romance escrito a partir dos diários de Marie Curie.

A proposta de ler e discutir o Americanah atendia, de saída, o que pensava sobre um programa equilibrado da disciplina em tempos de pandemia: propiciar bem-estar, estabelecer laços afetivos, de confiança, e motivar o engajamento intelectual dos estudantes pela descoberta. Por meio de sua personagem narradora, a leitura e a discussão do romance cumpriam o objetivo de nos tornar virtualmente mais próximos, nos fazer sentir parte de um todo, ou pelo menos de uma mesma turma #estudantesFE.

Na segunda semana gravei o vídeo para as duas classes (a de ingressantes, com mais de 60 alunos, e a classe do segundo ano noturno, com cerca de 40). À época, isso me pareceu o jeito mais rápido de chegar até eles (e também dos estudantes me colocarem em circulação); a ideia era mostrar uma “cara” – no caso a minha. Bom lembrar que as atividades administrativas na FE nem sequer tinham sido reiniciadas no modo remoto e todos estávamos ainda meio sem rumo.

No vídeo, falei que leríamos o romance, Americanah, o que talvez tenha causado certa surpresa. Falei de sua autora e cheguei até a ler a orelha do livro para entusiasmá-los. Disse que uma versão e-book do livro já estava disponibilizada no Moodle. Também enfatizei a importância de realizarem algumas tarefas que havíamos combinado em nossa única aula presencial antes da pandemia, como a elaboração e a entrega de um fichamento de um livro de introdução à antropologia muito conhecido (O que é cultura, de Roque Laraia).

Antes de falar sobre como desenvolvemos a disciplina e como os estudantes foram se envolvendo com as atividades propostas, preciso fazer um parêntesis para falar do Rodrigo Leal, nosso PED. Embora oficialmente Rodrigo estivesse vinculado apenas à turma do integral, ele assumiu também, de forma voluntária e solidária, a turma do segundo ano do noturno quando a PED desta turma pediu para se desvincular do programa por razões pessoais. Rodrigo foi um gigante, amigo e solidário, com quem pude trocar ideias, compartilhar dúvidas e algumas angústias. E com quem divido os louros dessa experiência.

Na primeira aula remota de cada turma, combinei com as classes que discutiríamos de 30 a 50 páginas do romance Americanah por semana. Cada estudante leria em seu próprio ritmo, mas sempre haveria um mínimo por semana. A discussão do livro servia, nesse começo, para organizar nossa rotina de encontros semanais e estabelecer compromissos comuns.

No início, para que os estudantes se sentissem à vontade para falar do romance, lancei mão de uma metodologia desenvolvida por Sara Hirshman, intitulada Cuento y Gente6: por meio de “rasgos poéticos” identificados em um conto, as pessoas são estimuladas a

Retomar algumas tarefas já combinadas na primeira aula foi muito importante para estabelecer uma certa continuidade; ao entregar um fichamento solicitado, por exemplo, o estudante parecia se sentir fazendo a coisa certa, o que se espera de um estudante universitário, o que lhe propiciava uma relativa segurança no meio de tantas incertezas.

Trata-se de um projeto voltado para a população hispânica concebido e implementado por Sara Hirshman, da Universidade de Princeton, nos Estados Unidos. O objetivo é conectar migrantes adultos nos Estados Unidos, sem ou com baixa escolaridade em suas línguas nativas e que não falam inglês, por meio da leitura em voz alta de contos da literatura erudita.

falar de passagens de suas vidas que elas associam a essas construções literárias. No projeto de Sara a ideia é possibilitar que pessoas sem escolaridade formal -o caso migrantes hispânicos nos EUA- consigam ler, apreciar e discutir uma obra literária erudita com base em suas memórias e experiências.

No caso dos estudantes da FE, por meio de um romance e de sua personagem narradora, Ifemelu, estávamos construindo um mundo comum; ao falar dela e de suas aventuras, falávamos um pouco de nós e sobre como sentimos o mundo, da dor e do mal do isolamento social, do medo da doença, das incertezas e das perdas que a pandemia da Covid-19 trouxe.

3. Compromisso e engajamento

Na discussão sobre o romance Americanah, os estudantes, depois de algumas dicas e exemplos, apresentavam o que entendiam por “rasgos poéticos”. Rapidamente entenderam como essa técnica funcionava e, sobretudo, o que nos proporcionava.

Falamos que “as cidades têm cheiros” e sobre o que é “ter cimento na alma”, e sobre “como é possível sentir falta de algo que não queria mais”; também falamos que “nem todos os brancos de dread não estão na nossa” e que “somos condicionados a preencher silêncios”, e falamos também de coisas que são como “algodão doce dissolvendo fácil da língua da memória” e ainda sobre ser uma “caçadora de sinais”.

Perguntamos com Ifemelu “Por que diz que ela mora na África ao invés de dizer um país?”
E o que sentimos quando “a sua mente não mudara no mesmo ritmo de sua vida” ou quando observamos que “tinha os olhos descontraídos dos privilegiados” ou ainda acerca do pai de Ifemelu: “um colonizado entusiasmado, com um inglês rebuscado, uma fantasia, um escudo contra a insegurança”.

Ou sobre os EUA: “Eles acreditam qualquer merda sobre a África”. E como Efemelu, às vezes até nos sentíamos confortáveis, “como se a nossa pele fosse do tamanho certo”.
Por meio dessas construções, procurava trazer, de modo transversal, os temas propriamente antropológicos da disciplina e introduzir os autores dos textos ditos acadêmicos da nossa bibliografia.

Logo os estudantes descobriram que havia um blog de verdade da Chimamanda, ou melhor da Ifemelu, e passamos a discutir os assuntos do blog que eram também os da disciplina, relativos às diferenças de classe, de gênero e étnicas e às desigualdades que elas geram em nossas sociedades na contemporaneidade.
O envolvimento dos estudantes foi crescente, tanto na turma dos ingressantes como na do noturno. Liam, traziam questões, participavam, discutiam.

Precisávamos definir como faríamos a avaliação, Ambas as classes tinham se superado em compromisso com a disciplina. Alguns estudantes se voluntariavam para apresentar os textos originalmente previstos nos seminários em grupo. Todos, ou quase, os liam.

Tomei a decisão de que a avaliação não seria individual, mas coletiva a partir de um único trabalho da classe. Nossa principal meta era envolver o maior número de estudantes da classe na realização do trabalho #nenhum nenhuma a menos. Cada estudante podia contribuir a seu modo, conforme os seus interesses pelos temas/autores discutidos ao longo da disciplina. Na avaliação seriam considerados, portanto, o envolvimento dos estudantes e o compromisso deles com a aprendizagem. Como corolário desse processo de aprendizado compartilhado, a nota seria uma só para toda a classe.

Propus que o trabalho fosse feito utilizando alguma plataforma de redes sociais. Sugeri, me achando super moderna, a criação de um site da classe, porque não conseguia pensar em algo mais novo e dinâmico. Mas eles foram além: propuseram criar um Instagram e me convenceram de suas vantagens. Para confessar, não sabia como isso funcionava e eles tiveram que me explicar #aprendendo com alunos.

Assim aconteceu e a disciplina saiu pra fora da sala do google meet. Ambas as turmas criaram uma conta no Instagram, deram nomes (votado em classe a partir de várias sugestões e ponderações) e criaram comitês de mediação para a postagem dos conteúdos. Aos comitês cabiam tanto avaliar a pertinência e adequação das postagens em relação à disciplina como procurar envolver todos os estudantes no projeto, atribuindo-lhes tarefas em grupos específicos.

O Instagram da classe de ingressantes, a que vou me deter aqui, recebeu o nome de _quarentenah em uma evidente homenagem ao romance Americanah pelo qual todos estavam apaixonados7. Eles o organizaram da seguinte maneira: cada dia da semana, tratavam de um assunto: um dia era dedicado para registros do “diário da quarentena”, em que postavam fotos do dia-a-dia, receitas, dicas de artesanato, crônicas, doenças etc.; no outro, discutiam a bibliografia da disciplina, com resumos, resenhas e discussões dos textos etc.

Como recebi uma das várias consultas por WhatsApp:
[15:23, 21/07/2020] +55 19 98974-4830: estou escrevendo a próxima página do hq que vai ter como tema o documentário “babies”
[15:24, 21/07/2020] +55 19 98974-4830: queria citar a Ruth Benedict informalmente na introdução
[15:25, 21/07/2020] +55 19 98974-4830: é correto afirmar que “Ruth achava que a melhor forma de estudar um povo e seus costumes era através da criação de seus filhos”???
Ao que eu respondi:
[16:36, 21/07/2020] Helena Sampaio: Mais ou menos. Buscar conhecer o modo como as crianças aprendem e o que elas devem aprender é uma boa maneira de conhecer as diferentes culturas.
Quando vc se referir a um autor vc deve usar sempre o sobrenome e não o seu primeiro nome. No caso de autores mulheres, costumamos usar nome e sobrenome quando a citamos pela primeira vez no texto. Justamente para mostrar que é mulher (isso é uma reivindicação do movimento feminista). Assim falamos de Ruth Benedict e não apenas Ruth.
[16:37, 21/07/2020] Helena Sampaio: Acho ótima ideia falar do documentário Babies e citar Ruth Benedict.

Aos domingos, as postagens no Instagram eram dedicadas à cultura, com links para shows, documentários, lives, reprodução de obras de arte etc. O grupo do Whatsapp da classe não parava nem às sexta-feiras à noite, em uma troca incessante de mensagens entre os estudantes sobre o que postar, os temas etc. Muitos e diversos talentos se manifestaram: poetas (Manu!), desenhistas e roteiristas de histórias em quadrinhos (nossa, a Duda!), resenhistas de livros, comentadores, artesãos e cozinheiros. A empolgação foi tanta que fomos até convidados para dar uma entrevista para o Jornal da Unicamp. Outro momento de comoção foi quando Lilia Schwarcz, autora do texto “Racismo à brasileira” que havíamos discutido, “curtiu” a página do Instagram com postagem sobre o assunto.

Mas o saldo que vejo nisso tudo não é o acumulado dos conteúdos ou dos referenciais teóricos que eu propunha trabalhar na disciplina e que de alguma forma se concretizou. Os aprendizados foram outros. Aprendemos juntos a fazer com que a relação ensino-aprendizagem ocorresse de um jeito diferente, construímos juntos uma turma de ingressantes solidária, empática e entusiasmada, que criou outros coletivos, que descobriu a literatura como uma nova possibilidade em suas vidas, que compartilhou seus saberes em outros domínios no espaço virtual do Instagram.

Posso dizer que minha experiência com os estudantes ingressantes 2020 foi como aquele filme “Nunca te vi, sempre te amei”. Tenho ainda muitas histórias deles para contar. Mas tenho certeza de que elas não terminaram, estão apenas começando # ingressantes 2020.

(1) Esse texto é uma apresentação oral em evento promovido pelo Ea2/Unicamp, Roda de conversa, 03/11/2020.
(2) Helena Sampaio, antropóloga, é professora da Faculdade de Educação da Unicamp.

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